
Texto escrito em 1989.
"No barro ele acomodou o primeiro, dele cuidou pôr um ano inteiro
e com suas sementes fez uma lavoura."
Os feijões foram crescendo e muitos acreditavam na profecia sobre o criador:
"Um dia ele voltará para colheita.
Todos serão julgados e somente os
justos irão morar eternamente na casa de deus."
Porém haviam aqueles que não acreditavam nestes contos de fadas e recusavam-se a usar a pinta branca, ou a marca, assim como chamavam os mais antigos. Eram poucos, juntando todos que não se adaptavam aos padrões chegaríamos a um índice menor que 5% da população de feijões. Mesmo assim eles insistiram e tentaram acordar os outros. Ninguém lhes ouvia.
Chuvas, ventos, trovoadas, depois um belo dia de sol. E num destes belos dias de sol...
Os feijão começam a sentir a mão de deus levantando-os do solo. O julgamento começou. São jogados as tentações de uma infernal trilhadeira, muitos são estraçalhados e não merecem mais a salvação. Todos são separados de suas famílias. As vagens são quebradas, as sociedades desfeitas e são ensacados. Não há comunicação entre os sacos, tronam-se universos separados, um desconhecem a existência do outro.
Continuam acreditando na profecia, com mais fé ainda, porque eles são os escolhidos para o grande julgamento final. Mesmo entre estes ainda existem alguns que fogem ao modelo padrão.
E chega a grande hora...
O saco é aberto, os feijões espalhados por uma imensa planície de madeira e começa o julgamento. Os quebrados, machucados, os diferentes, são colocados de lado.
Aqueles que ficaram são os aprovados para irem para o céu, passar a eternidade com deus. Regozijam felicidade e olham orgânicamente para o joio dizendo:
- Nunca é tarde para se redimirem...
Suas risadas duram até serem colocados dentro de um caldeirão fervente, aonde deus prepara uma feijoada para o almoço de domingo. E os diferentes são jogados fora para germinarem livremente.
por mauricio de leon
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