13 abril, 2010

Plantação de feijões


Texto escrito em 1989.


Não era somente um pé de feijão, mas segundo uma lenda muito antiga... Eram, vários pés de feijões, plantados pelas próprias mãos de deus. Um pôr um.

"No barro ele acomodou o primeiro, dele cuidou pôr um ano inteiro
e com suas sementes fez uma lavoura."

Os feijões foram crescendo e muitos acreditavam na profecia sobre o criador:

"Um dia ele voltará para colheita.
Todos serão julgados e somente os
justos irão morar eternamente na casa de deus."

Porém haviam aqueles que não acreditavam nestes contos de fadas e recusavam-se a usar a pinta branca, ou a marca, assim como chamavam os mais antigos. Eram poucos, juntando todos que não se adaptavam aos padrões chegaríamos a um índice menor que 5% da população de feijões. Mesmo assim eles insistiram e tentaram acordar os outros. Ninguém lhes ouvia.

Chuvas, ventos, trovoadas, depois um belo dia de sol. E num destes belos dias de sol...
Os feijão começam a sentir a mão de deus levantando-os do solo. O julgamento começou. São jogados as tentações de uma infernal trilhadeira, muitos são estraçalhados e não merecem mais a salvação. Todos são separados de suas famílias. As vagens são quebradas, as sociedades desfeitas e são ensacados. Não há comunicação entre os sacos, tronam-se universos separados, um desconhecem a existência do outro.

Continuam acreditando na profecia, com mais fé ainda, porque eles são os escolhidos para o grande julgamento final. Mesmo entre estes ainda existem alguns que fogem ao modelo padrão.
E chega a grande hora...

O saco é aberto, os feijões espalhados por uma imensa planície de madeira e começa o julgamento. Os quebrados, machucados, os diferentes, são colocados de lado.

Aqueles que ficaram são os aprovados para irem para o céu, passar a eternidade com deus. Regozijam felicidade e olham orgânicamente para o joio dizendo:

- Nunca é tarde para se redimirem...

Suas risadas duram até serem colocados dentro de um caldeirão fervente, aonde deus prepara uma feijoada para o almoço de domingo. E os diferentes são jogados fora para germinarem livremente.


por mauricio de leon

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